O resgate necessário da sensibilidade ecológico-social. Leonardo Boff

Signature of Carl Jung

Signature of Carl Jung (Photo credit: Wikipedia)

English: Hand-colored photograph of Carl Jung ...

English: Hand-colored photograph of Carl Jung in USA, published in 1910. (Photo credit: Wikipedia)

O resgate necessário da sensibilidade ecológico-social

03/09/2013

        Nos

dias 19-23 de agosto na cidade de Copenhagen realizou-se o XIX

Congresso internacional da Psicologia Analítica de C. G. Jung, do qual

participei. Havia cerca de 700 junguianos, vindos de todas as partes do

mundo, até da Sibéria, da China e da Coréia. A grande maioria analistas

experimentados, muitos deles autores de livros relevantes na área. Uma

tônica predominou: a necessidade de a psicologia em geral e da analítica

junguiana em particular abrir-se ao comunitário, ao social e ao

ecológico.

       Esta

preocupação vem ao encontro do próprio pensamento de C. G. Jung, Para

ele a psicologia não possuía fronteiras, entre cosmos e vida, entre

biologia e espírito, entre corpo e mente, entre consciente e

inconsciente, entre individual e coletivo. A psicologia tinha que ver

com a vida em sua totalidade, em sua dimensão racional e irracional,

simbólica e virtual, individual e social, terrenal e cósmica e em seus

aspectos sombrios e luminosos. Por isso tudo lhe interessava: os

fenômenos exotéricos, a alquimia, a parapsicologia, o espiritismo, os

discos voadores, a filosofia, a teologia, a mística ocidental e

oriental, os povos originários e as teorias científicas mais avançadas.

Sabia articular estes saberes descobrindo conexões ocultas que revelavam

dimensões surpreendentes da realidade. De tudo sabia tirar lições,

hipóteses, e enxergar possíveis janelas sobre a realidade. Em razão

disso, não cabia em nenhuma disciplina, motivo pelo qual muitos o

ridicularizavam.

      Esta

visão holística e sistêmica precisamos hoje tornar hegemônica na nossa

leitura da realidade. Caso contrário, ficamos reféns de visões

fragmentadas que perdem o horizonte do todo. Nesta diligência Jung é um

interlocutor privilegiado particularmente no resgate da razão sensível.

      Coube

a ele o mérito de ter valorizado e tentado decifrar a mensagem

escondida dos mitos. Eles constituem a linguagem do inconsciente

coletivo. Este possui relativa autonomia. Ele nos possui mais a nós do

que nós a ele. Cada um é mais pensado do que propriamente pensa. O órgão

que capta o significado dos mitos, dos símbolos e dos grandes sonhos é a

razão sensível ou a razão cordial. Esta foi na modernidade colocada sob

suspeita pois poderia obscurecer a objetividade do pensamento. Jung

sempre foi crítico do uso exacerbado da razão instrumental-analítica

pois fechava muitas janelas da alma.

     Conhecido

foi o dialogo em 1924-1925 que Jung manteve com um indígena da tribo

Pueblo no Novo México nos USA. Este indígena achava que os brancos eram

loucos. Jung lhe perguntou por que os brancos seriam loucos? Ao que o

indígena respondeu:”Eles dizem que pensam com a cabeça”. “Mas é claro

que pensam com a cabeça” retrucou Jung. “Como vocês pensam”? –

arrematou. E o indígena, surpreso, respondeu: ”Nós pensamos aqui” e

apontou para o coração (Memórias,Sonhos, Reflexões, p. 233).

        Esse fato transformou o pensamento de Jung. Entendeu que os europeus havia conquistado o mundo com a cabeça mas haviam  perdido a capacidade de pensar e sentir com o coração e de viver através da alma.

      Logicamente

não se trata de abdicar da razão – o que seria uma perda para todos –

mas de recusar o estreitamento de sua capacidade de compreender. É

preciso considerar o sensível e o cordial como elementos centrais no ato

de conhecimento. Eles permitem captar valores e sentidos presentes na  profundidade

do senso comum. A mente é sempre incorporada, portanto, sempre

impregnada de sensibilidade e não apenas cerebrizada.

        Em suas Memórias

diz: ”há tantas coisas que me repletam: as plantas, os animais, as

nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me

sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu

parentesco com o todo”( 361).

O

drama do homem atual é ter perdido a capacidade de viver um sentimento

de pertença, coisa que as religiões sempre garantiam. O que se opõe à

religião não é o ateísmo ou a negação da divindade. O que se opõe é a

incapacidade de ligar-se e religar-se com todas as coisas. Hoje as

pessoas estão desenraizadas, desconectadas da Terra e da anima que é a expressão da sensibilidade e espiritualidade.

  Para

Jung o grande problema atual é de natureza psicológica. Não da

psicologia entendida como disciplina ou apenas como dimensão da psique.

Mas psicologia no sentido abrangente como a totalidade da vida e do

universo enquanto percebidos e articulados com o ser humano.  É neste sentido que escreve: “É minha convicção mais profunda de que, a partir de agora,  até a um futuro indeterminado, o verdadeiro problema é de ordem psicológica. A alma é o pai e a mãe  de todos as dificuldades não resolvidas que lançamos na direção do céu”(Cartas III, 243).

Se

não resgatarmos hoje a razão sensível que é uma dimensão essencial da

alma, dificilmente nos mobilizaremos para respeitar a alteridade dos

seres, amar a Mãe Terra com todos os seus ecossistemas e vivermos a

compaixão com os sofredores da natureza e da humanidade.

 

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